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quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Burro e o Cãozinho



Um homem tinha um cão e um burro.
Gostava muito de brincar com o cão.
Jogava-lhe gulodices e fazia-lhe muita festa.
O burro foi ficando com ciúmes:
- Afinal, que faz esse cãozinho para ter tantas regalias?
Ele salta em volta do nosso dono, lambe-lhe as mãos, dá a patinha.
Nada de extraordinário. Posso fazer igual.
E, se bem pensou, melhor fez: assim que o dono se aproximou, começou a saltar-lhe ao redor e
logo lhe pôs as duas patas no peito.
O dono, é claro, machucou-se.
Furioso, mandou que recolhessem o burro e o amarrassem na cerca.
Muito desapontado, nosso amigo lá ficou a tarde inteira.
No fim do dia, tinha concluído:
- Não adianta querermos ter talentos que não temos.
Nada sai com graça!!!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Burro e o Cachorrinho



Um homem tinha um burro e um cachorrinho. O cachorro era muito bem cuidado por seu  dono, que brincava com ele, deixava que dormisse no seu colo e sempre que saía para um jantar voltava trazendo alguma coisa boa para ele.
O burro também era muito bem cuidado por seu dono. Tinha um estábulo confortável, ganhava muito feno e muita aveia , mas em compensação tinha que trabalhar no moinho moendo trigo e carregar cargas pesadas do campo para o paiol.
Sempre que pensava na vida boa do cachorrinho, que só se divertia e não era obrigado a fazer nada, o burro se chateava com a trabalheira que ficava por conta dele.
"Quem sabe se eu fizer tudo o que o cachorro faz, nosso dono me trata do mesmo jeito?", pensou ele.
Pensou e fez. Um belo dia soltou-se do estábulo e entrou na casa do dono saltitando como via o cachorro fazer. Só que, como era um animal grande e atrapalhado, acabou derrubando a mesa e quebrando a louça toda. Quando tentou pular para o colo do dono os empregados acharam que ele estava querendo matar o patrão e começaram a bater nele com varas até ele fugir de casa correndo. 
Mais tarde, todo dolorido da surra que levara, em seu estábulo , ele pensava: "Pronto, me dei mal. Mas bem que eu merecia. Por que não fiquei contente com o que sou em vez de tentar copiar as palhaçadas daquele cachorrinho?"


Cada um deve se sentir feliz com o que é .

O Vento e o Sol -



O vento e o sol começaram a discutir para saber qual dos dois era mais forte.
Nisso viram um viajante andando pela estrada e combinaram que aquele  que conseguisse fazer o homem tirar o casaco seria considerado o mais forte dos dois. 
O vento começou: deu um sopro tão forte que quase arrebentou as costuras do casaco. Mas o viajante agarrou o casaco com as duas mãos e segurou tão firme que não adiantou nada o vento continuar soprando até cansar.
Chegou a vez do sol. Primeiro ele afastou as nuvens da redondeza, depois apontou seus raios mais ardentes para a cebeça do viajante.
Em pouco tempo, frouxo de calor, o homem arrancou o casaco e correu para a primeira sombra que avistou!


Nem sempre é a força que resolve as coisas!

terça-feira, 12 de junho de 2012

A menina vendida com as peras


A menina  vendida com as peras
(fábulas italianas e a velha sábia)

Era uma vez um homem que tinha uma pereira que produzia quatro cestos de peras por ano. Em certo ano, aconteceu que só conseguiu três cestos e meio, e era preciso levar quatro para o rei. Não sabendo como completar o quarto cesto, colocou dentro dele a menor de suas filhas e cobriu-a de peras e folhas.
Os cestos foram levados até a despensa  do rei, e a menina rolou junto com as peras  e se escondeu.
Estava ali, na despensa, e, não tendo outra coisa para comer, mordiscava as peras. Passado algum tempo, os empregados se deram conta de que a provisão de peras diminuía  e encontraram também os talos. Disseram:
- Deve haver um rato ou uma toupeira que come as peras: precisamos verficar. Mexendo com as varas de vime encontraram a menina.
Perguntaram-lhe:
- O que faz aqui? Venha conosco, poderá trabalhar na cozinha do rei.
Chamaram-na de Perinha, e Perinha era uma menina tão dedicada que em pouco tempo sabia fazer o serviço melhor que as criadas do rei e era tão graciosa que todos a adoravam. O filho de rei que tinha a mesma idade que ela, estava sempre junto e entre eles nasceu uma grande simpatia.
Na mesma medida em que a menina crescia , crescia a inveja das criadas, pois aguentaram caladas algum tempo, depois começaram a pôr veneno. Assim puseram-se a dizer que Perinha se gabava de poder tomar o tesouro das bruxas. O boato chegou aos ouvidos do rei, que chamou a menina e lhe disse:
- É verdade que você se gabou de poder tomar o tesouro das bruxas?
Perinha disse:
- Claro que não é verdade, não sei de nada.
Mas o rei insistiu:
- Sabe sim e palavra empenhada é palavra mantida e a expulsou do palácio até que voltasse com o tesouro.
Anda que anda, a noite chegou e Perinha encontrou uma macieira e não parou. Encontrou um pessegueiro e não parou. Encontrou uma pereira acomodou-se entre os ramos e adormeceu.
De manhã, no pé da árvore havia uma velhinha.
- O que está fazendo aí bela criatura, disse a velhinha.
E Perinha contou a dificuldade em que se achava.A velhinha lhe disse:
- Pegue estas três libras de banha, estas três libras de pão e estas três libras de sorgo e vá em frente.
Perinha lhe agradeceu muito e seguiu pelo caminho.
Chegou a um lugar onde havia um forno. E havia três muheres que arrancavam os cabelos e com os cabelos varriam o forno. Perinha lhes deu as três libras de sorgo e elas começaram a varrer o forno com o sorgo e a deixaram passar.
Anda que anda, chegou a um lugar onde havia três mastins que latiam e pulavam em cima das pessoas . Perinha lhes jogou as três libras de pão e eles a deixaram passar.
Anda que anda, chegou a um rio de água vermelha feito sangue e não sabia como atravessá-lo. Mas a velha tinha lhe dito que dissesse:
            Torrentinha, linda torrentinha,
            Se não estivesse apressadinha
            Bem que beberia de canequinha.
Perante tais palavras a água se retirou e a deixou passar.
Para além daquele rio, Perinha viu um dos palácios mais bonitos e maiores dentre todos que existiam no mundo. Porém, a porta se abria e se fechava tão rápido que ninguém podia entrar. Então, Perinha untou os gonzos com as três libras de banha e a porta começou a se abrir e se fechar suavemente.
Tendo entrado no palácio, Perinha viu a arca do tesouro em cima de uma mesinha. Pegou-a e se preparou para sair, quando a pequena arca se pôs a falar.
- Porta, acabe com ela, porta acabe com ela! – dizia a pequena arca.
E a porta  respondia:
- Não, não acabo com ela , pois há muito ninguém me untava e ela me untou.
Perinha passou e, quando chegou ao rio a arca dizia:
- Rio, afogue-a, rio afogue-a!
E o rio respondia:
- Não, não a afogo, pois me chamou de torrentinha, linda torrentinha.
Passou pelo rio e quando chegou perto dos cães a arca  falou:
- Cães comam-na, comam-na!
E os cães:
- Não, não a comemos, pois nos deu três libras de pão.
Ela passou pelos cães e a arca dizia:
Forno, queime-a, queime-a!
- Não, não a queimamos, pois nos deu três libras de sorgo e assim economizamos  nossos cabelos.
Logo que chegou perto de casa, Perinha, curiosa como toda menina, quis ver o que havia na pequena arca. Abriu-a e pulou fora uma galinha com pintinhos de ouro. Corriam tão rápido que era impossível pegá-los.
Perinha se pôs a correr atrás deles. Passou pela macieira e não os encontrou, passou pelo pessegueiro e não os encontrou, passou pela pereira e lá estava a velhinha com uma vareta na mão cuidando da galinha com os pintinhos de ouro.
- Xô, xô, fez a velhota e a galinha com os pintinhas de ouro voltaram para dentro da arca.
Ao voltar para casa, Perinha foi acolhida pelo filho do rei.
- Quando meu pai perguntar o que quer de prêmio, indique aquele caixote cheio de carvão que está na adega.
Na entrada do palácio real, estavam as criadas, o rei e todos os cortesãos, e Perinha entregou ao rei a galinha com os pintinhos de ouro.
- Peça o que quiser, disse o rei, que lhe darei.
Perinha respondeu:
- Quero o caixote de carvão que está na adega.
Deram-lhe o caixote de carvão, ela o abriu e de dentro pulou o filho do rei que estava escondido lá dentro. Então o rei ficou muito contente e  deixou que Perinha casasse com seu filho!!!!!!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Rei Barba-de-Melro




Um rei tinha uma filha que era muito linda, mas tão orgulhosa e arrogante que nenhum pretendente a satisfazia. Ela recusava um após outro e ainda zombava deles.
Certa vez, o rei mandou dar uma grande festa, para a qual convidou os homens casadouros de todos os países, próximos e distantes. Todos foram colocados em fila , por posição e categoria: primeiro os reis, depois os duques, os príncipes, os condes, os barões e, por fim os fidalgos.
A princesa passou a fileira em revista, mas achava algum defeito em cada um deles. Mas divertiu-se especialmente à custa de um jovem rei, que tinha o queixo um pouco torto.
- Ora vejam, exclamou ela rindo, este aqui tem queixo como o bico de melro. O rei ficou assim apelidado de queixo-de-melro.
O rei ficou muito zangado com os insultos da filha para os pretendentes e jurou  que ela se casaria com o primeiro mendigo que aparecesse diante de sua porta.
Alguns dia depois, um músico ambulante começou a cantar embaixo da janela da princesa para ganhar uma esmola. Quando o rei ouviu mandou que ele entrasse.
O músico cantou para o rei e sua filha e quando terminou pediu uma humilde doação.
O rei falou: - teu canto me agradou tanto, que quero dar-te a minha filha em casamento.
A princesa se assustou, mas o rei disse:
- Eu fiz o juramento de te dar ao primeiro mendigo e vou cumprir!
Um padre foi chamado e ela teve de casar imediatamente com o mendigo.
O rei então falou: Agora não fica bem que tu , a mulher de um mendigo, continue a viver no meu palácio. Podes partir com o teu marido.
O mendigo levou-a embora e ela teve de seguí-lo a pé.
Quando chegaram a um bosque, ela perguntou:
- A quem pertence este lindo bosque?
“O rei barba-de-melro é o dono seu,
Se o tivesses aceito, seria teu!”
A princesa retrucou:
“Ai de mim, não estaria eu neste estado,
Se o rei barba-de-melro eu tivesse aceitado!”
Passaram depois por uma grande cidade, e ela perguntou de novo: - A quem pertence esta linda cidade?
“O rei barba-de-melro é o dono seu,
Se o tivesses aceito, seria teu!”
A princesa disse :
“Ai de mim não estaria eu neste estado,
Se o reio barba-de-melro eu tivesse aceitado!”
Não me agrada nem um pouco, disse o mendigo, que tu estejas desejando outro homem para marido, não sou bastante bom para ti?
Finalmente chegaram a uma pequena casinha e ela perguntou:
“Meu Deus, que casinha pequenininha!
A quem pertence esta casinha?”
O músico-mendigo respondeu:
- A casa é minha e tua, nós vamos viver juntos nesta casa.
Ela teve que se curvar para passar pela porta baixinha e perguntou:
- Onde estão os criados?
- Que criados? Disse o mendigo. Terás que fazer sozinha o que quiseres ver feito. Acende já o fogo e põe água para ferver , para cozinhar minha comida. Estou muito cansado.
A filha do rei não entendia de acender fogo e cozinhar, foi o mendigo que teve que fazer o que era preciso. Terminada a pequena refeição , foram dormir e pela manhã logo cedo ele a tocou para fora da cama para que cuidasse da casa.
Durante alguns dias eles viveram mal e mal, e as provisões acabaram. O marido disse:
- Mulher, não temos mais nada, tu terás que fazer cestas.
Ele trouxe juncos e ela começou a trançar , mas os juncos feriram suas delicadas mãos.
_ Estou vendo que isso não dará certo, disse o marido, é melhor começares a fiar.
A princesa sentou-se para fiar, mas a linha áspera cortou seus dedos macios que começaram a sangrar.
- Estás vendo, disse o marido, não serves para nada, fiz um mau negócio . Vou tentar outro negócio. Você vai para o mercado para vender potes.
Ai de mim, pensou ela, se no mercado aparecessem pessoas do reino do pai e a vissem ali iam zombar dela. Porém de nada adiantou, ela teve que ir. Da primeira vez compraram  as mercadorias e pagavam o q ela pedia, pois era muito bonita. Muitos nem levavam as vasilhas.  Eles aí viveram um tempo com o que ganharam.
Passado um tempo o marido mandou que ela vendesse mais potes no mercado.  De repente, chegou galopando um sujeito embriagado e meteu o cavalo bem no meio dos potes, quebrando tudo. Ela começou a chorar. – Ai de mim, o que será que meu marido vai dizer? Correu para casa para contar a desgraça que lhe acontecera.
- Para de chorar, disse ele. Eu estive no castelo do nosso rei e você vai trabalhar lá como servente e em paga terá comida de graça.
Ela tornou-se servente de cozinha, comia a sua parte e levava nos bolsos um pote para o marido.
Pouco tempo depois foi anunciado o casamento do filho mais velho do rei. Ela foi olhar no salão para ver o que acontecia Quando as luzes se acenderam e as pessoas começaram a chegar ela pensou tristemente no seu destino e  na sua arrogância que só fazia humilhar a todos .
De repente, na festa entrou o filho de um rei. Trajava bela vestimenta. Quando a viu parada na porta, agarrou-a pela mão para que ela fosse dançar com ele. Ela recusou assustada, pois viu que era o rei barba-de-melro que ela desdenhara com zombarias.
Sua resistência de nada adiantou, pois ele levou-a para o salão. Quando dançavam os potinhos que ela levava com comida para o marido caíram no chão e todos começaram a rir dela . Saiu correndo tentando fugir, mas o homem a agarrou e trouxe de volta, ela o encarou e viu de novo o rei barba-de-melro.
-Ele lhe disse gentilmente:
- Não tenhas medo, eu e o músico com quem moras naquele casebre somos a mesma pessoa. Foi por amor a ti que eu me disfarcei assim. Quem jogou o cavalo quebrando as vasilhas também fui eu. Fiz tudo isso para castigar sua arrogância .
Então, ela chorou amargamente e disse:
- Eu fiz muito mal e não sou digna de ser sua esposa, mas ele retrucou:
- Consola-te, os dias amargos já passaram , agora vamos celebrar nssas bodas.
Vieram as camareiras e vestiram-na com lindos trajes, veio seu pai e toda a corte  para lhes

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um artigo sobre a leitura



Artigo: “A sedutora história da leitura”
Elias Thomé Saliba
Historiador, Professor da USP e autor dos livros Raízes do Riso (2002) e As
Utopias Românticas (1994)



Um livro só começa a existir quando um leitor o abre. Esta afirmação resume o novo olhar dos historiadores em relação à leitura. Durante muito tempo eles mantiveram frente à leitura uma atitude linear, supondo-a invariável, natural a todas as pessoas de todas as épocas. Hoje, inúmeras pesquisas nos ensinam a ver no gesto trivial de ler um texto, uma variação quase infinita, possível de ser reconstituída nos diversos momentos da história.
Claro que a difusão do "livro com páginas" tal como o conhecemos, assim como a primeira revolução na história do livro - a invenção da imprensa no século XV - provocaram um alargamento enorme do número de leitores. A segunda grande mutação nas maneiras de ler ocorreu no final do século XVIII com a passagem de hábitos intensivos de leitura - a leitura constante e repetida de textos de caráter religioso (a Bíblia era o grande best-seller!) – para hábitos extensivos de leitura do leitor moderno, que (mal) lê vários livros, ávido por novidades.
Mas a leitura "intensiva" não chega a desaparecer, pois o advento do romance coincidiu com a disseminação de modos emocionais de leitura. Rousseau exigiu que o seu A Nova Heloísa fosse "lido tão intensamente quanto a Bíblia", o que realmente ocorreu, provocando nas leitoras desmaios, choros convulsivos e, no limite, suicídios. Com os olhos de hoje, distraídos pelo caleidoscópio de imagens nas telas, fica difícil concebermos a força  desta paixão incendiária provocada pela leitura.
Sedução pela leitura? Ler em público era, antes do advento do marketing e da noite de autógrafos, a melhor maneira de um autor obter público para seus livros. O poeta Dylan Thomas, em alto estado etílico, encantava com sua belíssima poesia cantada nos bares, coisa só percebida na língua original.
Mas, na inspirada tradução de Ivan Junqueira, os leitores podem ter uma idéia:
 Em meu ofício ou arte taciturna/
 Exercido na noite silenciosa/
 Quando somente a lua se enfurece /
 Trabalho junto à luz que canta/
 Não por glória ou pão/
 Nem por pompa ou tráfico de encantos/
 Nos palcos de marfim/
 Mas pelo mínimo salário/
 Do seu mais secreto coração.
 Difícil imaginar tais versos, como revelam os arquivos, reproduzidos por inúmeros leitores que os enviavam, junto com as flores, às namoradas distantes.
Difícil, mas não impossível, já que no final do século XIX o público leitor atingiu a alfabetização em massa. A "era de ouro" da leitura foi também a  última a ver o livro ainda imune à competição com outros meios de comunicação - TV, internet e todo o sofisticado aparato da mídia eletrônica do século XX. Ler numa tela não é o mesmo que ler num livro com páginas.
Estaríamos hoje diante de uma terceira revolução da leitura? Independente da imprevisível resposta, esta recente história da leitura empolga e surpreende. Porque é a história de uma prática ligada talvez ao  mais espetacular instrumento utilizado pelo homem.
Que afinal, vem confirmar o que Jorge Luis Borges disse certa vez, de forma definitiva, sobre o livro: O microscópio e o telescópio são extensões da nossa visão; o telefone é a extensão da nossa voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões do nosso braço. O livro, porém, é outra coisa:
o livro é uma extensão da nossa memória e da nossa imaginação.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Os músicos da cidade de Brema


Um homem tinha um burro, que por muitos anos carregou contente os sacos para o moinho, mas cujas forças agora chegavam ao fim, de modo que o seu trabalho ia ficando cada vez pior. Então o dono pensou em doá-lo , mas o burro pecebeu que os ventos não lhe eram favoráveis, fugiu e pôs-se a caminho da cidade de Brema: lá, pensou ele, poderia tornar-se músico municipal!
Quando ele já andára um bom pedaço do caminho, encontrou um cachorro deitado ali, arfando como quem já tivesse corrido muito, e cansado de correr.
- Por que estás tão esbaforido, Pegaí? – perguntou o burro.
- Ai, - disse o cão, - é porque estou velho e ficando cada dia mais fraco, e estou ruim também para a caça, e por isso o meu dono quis me matar, daí eu pus sebo nas canelas. Mas como é que vou agora ganhar o meu sustento?
- Sabes de uma coisa, - disse o burro, - eu estou a caminho de Brema, para ser músico municipal ali, vem comigo e emprega-te também na música. Eu toco alaúde e tu bates timbales.
O cão estava de acordo e eles continuaram em frente. Não demorou muito , e viram um gato sentado à beira do caminho, com uma cara de três dias de chuva.
- O que foi que te saiu atravessado,Limpa-barbas? - perguntou o burro.
- Quem é que pode ficar alegre quando se trata do seu pescoço, respondeu o gato, - só porque agora estou velho, meus dentes perderam as pontas e tenho mais vontade de ficar atrás do fogão, ronronando, do que correr atrás dos ratos, a minha dona quis me afogar. É verdade que consegui fugir, mas agora preciso de um bom conselho: - para onde eu posso ir?
- Vem conosco para Brema! Tu és esntendido em música noturna, poderás ser músico municipal ali.
O gato achou a oferta boa e seguiu com eles. Logo os três fugitivos chegaram a um pátio, e lá, sobre o portão estava o galo da casa, gritando com todas as forças.
- Gritas de varar os ossos da gente, - disse o burro, - o que tens em vista?
- Profetizei bom tempo, retrucou o galo, - porque hoje é dia de Nossa Senhora, quando ela lava a camisa de Jesuscristinho, e quer secá-la. Mas como amanhã vêm visitas para o domingo, a dona da casa não teve dó e disse à cozinheira que quer me comer amanhã na sopa, e eu tenho de deixar que me cortem a cabeça hoje à noite. Então estou berrando a bom berrar, enquanto ainda posso.
- Nada disso , ó Crista-rubra, - disse o burro, - é melhor vir conosco, nós vamos para Brema. Coisa melhor que a morte encontrarás em qualquer lugar, tens uma boa voz e se fizermos música juntos, as coisas se ajeitarão.
O galo gostou da ideia, e os quatro puseram-se a caminho, juntos,.
Porém, não conseguindo chegar à cidade de Brema num só dia, eles resolveram pernoitar num bosque onde chegaram ao anoitecer. O burro e o cão deitaram-se debaixo de uma grande árvore, o gato e o galo acomodaram-se nos galhos, mas o galo voou até o galho mais alto, onde era mais seguro. Antes de adormecer, ele olhou mais uma vez para todos os pontos cardeais, e aí pareceu-lhe ver ao longe uma centelha brilhando, e gritou avisando os companheiros de que bem perto devia haver uma casa, porque ele vira uma luz.
Falou o burro:
- Então devemos nos levantar e ir até lá, porque aqui a hospedagem não é das melhores.
O cachorro opinou que um par de ossos com alguma carne presa neles também lhe faria bem.
E eles partiram a caminho, na direção de onde vinha a luz, e logo viram-na clarear e brilhar mais, ficando cada vez maior, até que eles chegaram a uma bem iluminada casa de bandidos. O burro, sendo o maior, aproximou-se da janela e espiou para dentro.
- O que estás vendo, Pelo-gris?- perguntou o galo.
- O que eu vejo? - disse o burro – vejo uma mesa posta com boas comidas e bebidas, e os ladrões sentados em volta, regalando-se.
- Está aí uma coisa boa para nós! – disse o galo.
- Iiiá, iiá, se estivéssemos lá! Disse o burro.
Então os bichos começaram a se aconselhar sobre o que fazer para enxotar os bandidos dali, e finalmente encontraram um meio. O burro deveria colocar as patas dianteiras na janela, o cão pularia nas costas do burro, o gato subiria no cachorro, e por último o galo voaria e se encarapitaria na cabeça do gato.
Assim que isto foi feito, os quatro, a um sinal, começaram todos juntos a fazer a sua música: o burro zurrava, o cão latia, o gato miava e o galo cocoricava.
E aí eles se precipitaram para dentro da casa, estilhaçando as vidraças com grande alarido.
Com aqule berreiro infernal, os bandidos pularam para o ar de susto, pensando que era um fantasma que invadia a casa, e fugiram apavorados para dentro do mato.
E então, os quatro companheiros sentaram-se à mesa , aproveitando de tudo o que sobrara, e comeram como se tivessem que passar fome por semanas.
Quando os quatro musicistas terminaram, apagaram a luz e procuraram um lugar para dormir, cada um segundo a sua natureza e conforto.
O burro deitou-se sobre o esterco, o cão junto da porta, o gato no fogão , na cinza quentinha e o galo pousou no poleiro das galinhas. E como estavam cansados da longa caminhada, os quatro adormeceram logo.
Quando passou da meia-noite e os bandidos viram de longe que não havia mais luz dentro da casa, e que tudo parecia estar calmo, o chefe disse:
- Não devíamos ter-nos deixado enxotar desse jeito, - e mandou um dos homens ir até a casa e espiar.
O enviado encontrou tudo em silêncio, entrou na cozinha para acender uma luz e, vendo os olhos do gato faiscando no escuro, pensou que fossem carvões em brasa e chegou-lhes um palito de fósforo para acendê-lo. Mas o gato não queria saber de brincadeiras, pulou-lhe na cara, mordendo e unhando. O homem levou um susto horrível e quis escapar pela porta dos fundos, mas o cão estava lá, pulou e mordeu-lhe as pernas . E quando ele corria pelo quintal passou pelo esterco e o burro deu-lhe um grande coice com a pata traseira. E o galo, que acordara com o barulho e a gritaria, animou-se e gritou do poleiro: cocoricó!!!
Aí o bandido, pernas para que te quero, correu de volta para o chefe e disse:
- Ai, lá dentro da casa está uma bruxa horrorosa, ela me bafejou e me arranhou a cara com seus dedos compridos. E na frente da porta está um homem com uma faca, que me espetou na perna, e no quintal está um monstro negro que me golpeou com um cacete de pau, e lá em cima do telhado está um juiz , que gritou: “tragam-me aqui o patife!” Aí eu tratei de me escafeder depressa!
Dali em diante os bandidos não se atreveram mais a voltar para casa. Mas os quatro músicos de Brema sentiram-se tão bem ali, que resolveram não mais sair.