domingo, 17 de janeiro de 2010

A PROFECIA (conto russo)


O valoroso príncipe Oliêg se preparava para mais uma campanha, desta vez em represália contra a tribo hostil dos kazares, que haviam assaltado suas terras. À testa de intrépida hoste de guerreiros, ele partiu, montado no seu garboso corcel de guerra, companheiro fiel de muitas refregas, do qual nunca se separava.

A caminho do campo de batalha, veio-lhe ao encontro, surgindo da floresta escura, um venerando mago vidente. O sábio eremita passara toda a vida em prece e meditação, e podia ver o passado e prever o futuro. Oliêg aproximou-se do ancião e, do alto da sua nobre montaria, dirigiu-lhe a palavra.

- Dize-me , ó mago, favorito dos deuses, o que me reserva a vida? Qual será o destino que espera por mim, que me aguarda na paz e na guerra? Revela-me toda a verdade, ancião. Não tenhas medo de mim. E em recompensa eu te darei qualquer um dos meus belos corcéis.

O velho mago então retrucou em voz serena e severa:

- Os magos não temem guerreiros nem reis, e dispensam os dons principescos. Sua língua é sábia, livre é o seu falar, que obedece à vontade dos deuses. O futuro se oculta nas sombras , porém o teu fado eu leio em tua fronte.

-Fala, pois, mago! – Oliêg retrucou. E o mago continuou:

- Marca, ó príncipe, o que aqui te direi: nas guerras, serás vitorioso. Tua fama e glória o mundo atroarão. Nem flecha, nem lança ou espada, nem punhal traiçoeiro jamais vararão a tua brilhante armadura. Um guardião invisível te protegerá, por teus longos anos de vida.

O corcel de Oliêg sacudiu impaciente a bela cabeça altiva. E o mago então voltou a falar:

- Lembra, príncipe, as minhas palavras: teu cavalo não teme perigo nem dor, sentindo a vontade do dono , ora para imóvel sob flechas hostis ora galopa veloz, destemido. Teu cavalo, Oliêg, te é fiel e leal. Mas tua morte advirá do teu belo corcel.

Uma sombra passou pelo rosto de Oliêg. Pensativo e taciturno, da sela ele desceu e acariciou a crina esvoaçante do seu brioso alazão.

- Adeus , meu amigo, meu servo fiel, devemos nos separar. Descansa agora, pois meu pé não mais pisará no teu estribo dourado. Adeus, não entristeças, não te esqueças de mim!

E Oliêg ordenou a dois jovens guereiros que levassem embora o vavalo.

- Levai meu corcel, meus jovens amigos. Agasalhai-o com a manta felpuda e soltai-o no meu campo relvado. Banhai-o, alimentai-o com os mais finos grãos, dai-lhe a beber água pura da fonte, para que ele tenha uma vida feliz, em liberdade e fartura.

E os querreiros levaram o alazão, e trouxeram a Oliêg outra montaria.

Passaram os anos. O grande Oliêg banquet eava-se com sua guerreiros, já grisalhos como ele. As canecas espumantes se erguiam em roda, e os velhos companheiros cantavam e bebiam, recordando os dias pregressos e as batalhas que juntos tinham travado.

De repente, opríncipe se lembrou do fogoso corcel do qual tivera de se separar havia tanto tempo, e falou:

- Dizei-me, amigos, o que foi feito do meu garboso ginete? O meu velho companheiro ainda galopa livre pelo campo? Ainda é ligeiro e fogoso como antes?

E o herói ouviu em resposta que o seu bravo e leal cavalo de batalha havia muito dormia o sono eterno ao pé da colina, junto ao rio. E o poderoso Oliêg deixou pender a cabeça, e lamentou:

- De que valeu a profecia do mago? Mago, és um velho mentiroso e louco! Eu devia ter desprezado o teu vão vaticínio, e o meu alazão me carregaria até o dia de hoje...

E Oliêg quis ver os restos do seu antigo companheiro, e, juntamente com seus guerreiros, foi até o lugar indicado. E lá ele viu, branquejando em meio ao capim balouçante, os nobres ossos do seu corcel.

Taciturno, o príncipe apoiou um pé sobre o alvo crânio do cavalo, e falou tristemente:

- Dorme em paz, meu solitário amigo! O teu velho dono te sobreviveu. Não serás tu que , nas minhas exéquias já não tão distantes, acompanharás para a sepultura este velho guerreiro, e regarás com teu sangue os meus restos mort ais no sacrifício final!

– E acrescentou, amargurado:- Então era aqui que se ocultava o meu fim? Ameaçava-me pálida ossada?

Mas enquanto ele falava , pensativo e absorto, da fria caveira esgueirava-se , sinuosa, uma serpente tumular. Qual fita negra, ela se enroscou no pé de Oliêg... e um grito súbito escapou do príncipe ferido de morte...

As canecas espumantes se erguiam em roda no banquete fúnebre em memória do

príncipe Oliêg. Os guerreiros grisalhos bebiam e cantavam, recordando os dias pregressos e as batalhas que juntos tinham travado.

E assim se cumpriu a profecia do mago!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Bruxa da Montanha

Era uma vez um rei que tinha dois filhos, uma princesa e um príncipe. Sua esposa, a rainha, tinha morrido e ele teve que ficar sozinho com os dois filhos.

A princesa já estava ficando mocinha e não gostava de ficar sozinha no castelo, pedia sempre ao pai que a levasse para passear. O rei não tinha muito tempo e o irmão, o príncipe, era muito novo ainda para sair com ela.

Todos os dias ela ficava na janela do castelo olhando as pessoas que passavam e, assim, se distraindo. Um dia, passou pelo palácio um rapaz muito bonito, olhou para ela e sorriu. Ela ficou toda feliz, mas não sabia quem era e seu pai era muito severo, não deixando que ela falasse com estranhos.

Os dias passavam e o rapaz continuava a sorrir para ela quando passava pela sua janela.

Um dia, ela tomou coragem e chamou o rapaz, perguntando quem ele era. Ele respondeu que morava com a mãe no alto da colina e que vinha sempre à cidade para trabalhar .

Ela ficou encantada de saber que o rapaz trabalhava e tinha uma mãe. Resolveu pedir ao rapaz que a levasse para conhecer a mãe dele na montanha.

No dia seguinte, pediu ao irmão que dissesse ao pai que ela saíra com a ama e não ia demorar. A ama não gostou da mentira, mas como gostava muito dela foi assim mesmo.

Quando chegaram ao alto da montanha encontraram a mãe do rapaz colhendo flores no jardim da casa. Ela veio ao encontro deles e ficou impressionada com a beleza da princesa. Conversaram muito e como estava tarde a ama chamou-a para irem embora.

Quando chegou, o rei já estava nervoso com a demora e perguntou onde elas estavam. A princesa que não achava certo mentir contou ao pai que fora no alto da montanha conhecer a mãe do rapaz que sorria para ela na janela.

O rei ficou muito preocupado porque lá no alto da montanha morava uma bruxa malvada que tinha transformado em sapos e corujas, vários príncipes da região e quando chegava no alto da montanha fazia eles voltarem a ser normais e os vendia para quem não tinha filhos. Perguntou para a filha como era esse rapaz e ela descreveu-o para o pai. Ele pediu que ela não fosse mais na montanha enquanto ele, não descobrisse sobre a bruxa. No dia seguinte, foi à casa do rapaz e conversou com a mãe dele que lhe disse que o rapaz não era seu filho de verdade, mas ela tinha adotado ele de uma mulher do lugar desde muito pequeno. O rei então, pediu para ver o rapaz e descobriu através de uma marca de nascença que ele era filho de um rei amigo seu. A mãe adotiva não queria acreditar, mas o rei deu-lhe um bom dinheiro e ela permitiu que o filho fosse com ele para a cidade. O rei levou o rapaz ao castelo de onde ele havia sido tirado em criança e mostrou-o aos seus verdadeiros pais que viviam muito tristes desde que o filho fora roubado pela bruxa. Foi uma grande festa o reencontro da família. O rapaz pediu ao rei se poderia casar com a princesa e ele, claro que permitiu. Houve uma grande festa no palácio. Assim, foram todos muito felizes. Mas ninguém achou a bruxa para conseguir trazer de volta os outros que foram transformados em sapos e corujas

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

As Três Fiandeiras - irmãos Grimm



Era uma vez uma moça preguiçosa, que não queria fiar. A mãe podia falar o que quisesse, que não conseguia convencê-la a trabalhar.Finalmente a mãe ficou zangada e impaciente, a ponto de dar-lhe umas pancadas, e a moça começou a chorar em voz alta. Naquele momento , a rainha ia passando por ali, na sua carruagem, e quando ouviu o choro, mandou parar, entrou na casa e perguntou à mãe por que ela batia tanto na filha, que se ouviam os gritos lá da rua. Então a mulher ficou com vergonha de confessar a preguiça da filha e disse:

- Eu não consigo fazê-la parar de fiar, ela quer fiar o tempo todo, e eu sou pobre e não posso arranjar tanto linho.

Então a rainha respondeu:

- Não há nada de que eu goste mais do que ouvir fiar, ela quer fiar , e nada me dá mais prazer que o ronronar das rodas da roca. Deixe-me levar a sua filha comigo para o castelo , eu tenho linho à vontade e ela poderá fiar quanto quiser.

A mãe concordou de todo o coração , e a rainha levou a moça consigo.

Quando chegaram ao castelo, ela levou a moça para três quartos que estavam cheios do mais belo linho, de alto a baixo.

Agora fia-me este linho, disse ela, - e quando terminares, terás o meu filho mais velho por esposo. Mesmo que sejas pobre, eu não me importo: a tua valente diligência é dote suficiente.

A moça assustou-se por dentro, pois não poderia fiar aquele linho, ainda que vivesse até trezentos anos e ficasse todos os dias fiando desde a manhã até a noite. E quando ficou sozinha, ela começou a chorar e ficou assim três dias, sem mover um dedo.

No terceiro dia, chegou a rainha, e quando viu que nada tinha sido fiado, admirou-se muito. Mas a moça desculpou-se, dizendo que não conseguira começar a trabalhar, por causa da grande tristeza que a separação da mãe lhe causara. A rainha aceitou a desculpa, mas disse ao sair:

- Amanhã tens que começar a trabalhar!

Quando a moça tornou a ficar sozinha, não sabia o que fazer e, na sua afliçao, foi para a janela. Aí ela viu três mulheres chegando. Uma tinha um pé largo e chato, a segunda tinha um beiço tão grande que lhe caía por cima do queixo, e a terceira tinha um polegar muito largo. Elas pararam embaixo da janela, olharam para cima e perguntaram à moça o que ela tinha. Ela queixou-se da sua infelicidade. Então elas lhe ofereceram a sua ajuda e disseram:

- Se nos convidares para o teu casamento, nos chamar de primas, sem ter vergonha de nós, e nos puseres à tua própria mesa, nós te fiaremos todo o linho, e num tempo bem curto.

- De todo o coração, - respondeu a moça, - entrem e comecem a trabalhar logo!

E ela deixou entrar as três estranhas, arranjou-lhes lugar para se sentarem e elas começaram a fiar. A primeira puxava o fio e pisava o pedal da roca, a outra molhava o fio, e a terceira torcia-o e batia com o dedo na mesa, e cada vez que ela batia, caía ao chão uma meada de linha da mais fina fiação.

A moça escondeu as três fiandeiras da rainha, e sempre que ela vinha, mostrava-lhe a grande quantidade de linha fiada, e colhia muitos elogios.

Quando o primeiro quarto foi esvaziado, começou o trabalho no segundo, e logo mais no terceiro, até que este também ficou arrumado. Então as três mulheres despediram-se da moça e disseram:

- Não te esqueças do que nos prometeste , isso será a tua felicidade!

Quando a moça mostrou à rainha os três quartos vazios e o grande monte de linha, a rainha preparou tudo para o casamento, e o noivo ficou muito contente, porque ganhava uma esposa tão jeitosa e diligente, e cobriu-a de elogios.

- Eu tenho três primas, - disse a moça, - e como elas me fizeram muita coisa boa, não quero esquecê-las na minha felicidade, permita-me pois, que eu as convide para o casamento e as faça sentarem à minha mesa.

A rainha e o noivo disseram: - Por que não permitiríamos isso?

Quando a festa começou, entraram as três mulheres em trajes estranhos , e a noiva disse: - sejam bem-vindas, queridas primas !

- Ah, disse o noivo, - onde arranjaste essas parentes tão feias?

E ele foi até aquela do pé largo e chato e perguntou:

- Do que lhe vem este pé tão largo?

- De pisar o pedal, - respondeu ela, - de tanto pisar!

O noivo dirigiu-se à segunda e perguntou: - Do que lhe vem esse beiço caído?

- De lamber, - respondeu ela, - de tanto lamber!

Para a terceira ele perguntou:

_ E de onde vem este polegar achatado?

- De torcer o fio, - respondeu ela, - de tanto torcer!

Então o príncipe ficou assustado e disse: - de agora em diante minha bela noiva nunca maios tocará uma roca de fiar!

E com isso a jovem ficou livre da odiosa fiação de linho!!!!