Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um artigo sobre a leitura



Artigo: “A sedutora história da leitura”
Elias Thomé Saliba
Historiador, Professor da USP e autor dos livros Raízes do Riso (2002) e As
Utopias Românticas (1994)



Um livro só começa a existir quando um leitor o abre. Esta afirmação resume o novo olhar dos historiadores em relação à leitura. Durante muito tempo eles mantiveram frente à leitura uma atitude linear, supondo-a invariável, natural a todas as pessoas de todas as épocas. Hoje, inúmeras pesquisas nos ensinam a ver no gesto trivial de ler um texto, uma variação quase infinita, possível de ser reconstituída nos diversos momentos da história.
Claro que a difusão do "livro com páginas" tal como o conhecemos, assim como a primeira revolução na história do livro - a invenção da imprensa no século XV - provocaram um alargamento enorme do número de leitores. A segunda grande mutação nas maneiras de ler ocorreu no final do século XVIII com a passagem de hábitos intensivos de leitura - a leitura constante e repetida de textos de caráter religioso (a Bíblia era o grande best-seller!) – para hábitos extensivos de leitura do leitor moderno, que (mal) lê vários livros, ávido por novidades.
Mas a leitura "intensiva" não chega a desaparecer, pois o advento do romance coincidiu com a disseminação de modos emocionais de leitura. Rousseau exigiu que o seu A Nova Heloísa fosse "lido tão intensamente quanto a Bíblia", o que realmente ocorreu, provocando nas leitoras desmaios, choros convulsivos e, no limite, suicídios. Com os olhos de hoje, distraídos pelo caleidoscópio de imagens nas telas, fica difícil concebermos a força  desta paixão incendiária provocada pela leitura.
Sedução pela leitura? Ler em público era, antes do advento do marketing e da noite de autógrafos, a melhor maneira de um autor obter público para seus livros. O poeta Dylan Thomas, em alto estado etílico, encantava com sua belíssima poesia cantada nos bares, coisa só percebida na língua original.
Mas, na inspirada tradução de Ivan Junqueira, os leitores podem ter uma idéia:
 Em meu ofício ou arte taciturna/
 Exercido na noite silenciosa/
 Quando somente a lua se enfurece /
 Trabalho junto à luz que canta/
 Não por glória ou pão/
 Nem por pompa ou tráfico de encantos/
 Nos palcos de marfim/
 Mas pelo mínimo salário/
 Do seu mais secreto coração.
 Difícil imaginar tais versos, como revelam os arquivos, reproduzidos por inúmeros leitores que os enviavam, junto com as flores, às namoradas distantes.
Difícil, mas não impossível, já que no final do século XIX o público leitor atingiu a alfabetização em massa. A "era de ouro" da leitura foi também a  última a ver o livro ainda imune à competição com outros meios de comunicação - TV, internet e todo o sofisticado aparato da mídia eletrônica do século XX. Ler numa tela não é o mesmo que ler num livro com páginas.
Estaríamos hoje diante de uma terceira revolução da leitura? Independente da imprevisível resposta, esta recente história da leitura empolga e surpreende. Porque é a história de uma prática ligada talvez ao  mais espetacular instrumento utilizado pelo homem.
Que afinal, vem confirmar o que Jorge Luis Borges disse certa vez, de forma definitiva, sobre o livro: O microscópio e o telescópio são extensões da nossa visão; o telefone é a extensão da nossa voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões do nosso braço. O livro, porém, é outra coisa:
o livro é uma extensão da nossa memória e da nossa imaginação.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

AS FADAS ESTÃO DE VOLTA


Até os distraídos puderam notar que, entre as muitas curiosidades do nosso tempo caótico, dinamizado pela cultura cibernética, vem se sobressaindo a crescente onda de interesse pela literatura alimentada pela magia, pelo sobrenatural, pelo mistérioda vida, das forças ocultas. E, no rastro desses interesses, também as Fadas estão de volta, entrando não só nos lares, mas também nas escolas.
            Multiplicam-se nas livrarias as edições e reedições dos contos de fadas ou contos maravilhosos, lendas, mitos, clássicos antigos e modernos. O mercado oferece, em sedutoras edições ilustradas, toda uma literatura que parecia perdida no tempo: A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela ou a Gata Borralheira, Dom Quixote e muitos outros. Livros que parecem anacrônicos ao serem confrontados com este nosso ciberespaço, mas que são verdadeiras fontes de sabedoria.
            Não há dúvida de que estamos vivendo em um limiar histórico: entre uma ordem de valores herdada da tradição progressista (e hoje em pleno processo de superação/transformação) e uma desordem em cujo bojo um nova “ordem” está em gestação...(muito embora ainda não tenhamos idéia de como ela será!). É nesse limiar ou nessa fronteira que se situa o papel formador desses livros antigos. Portanto, longe de serem vistos como algo superado ou mero entretenimento  infantil, precisam urgentemente ser redescobertos como fonte de conhecimento de vida. E, nesse sentido, descobertos como auxiliares fecundos na formação  da mente dos novos , dos “mutantes” que já estão chegando e precisam ser preparados para atuar no amanhã, que está sendo semeado no hoje...
            Sabemos que, para realizarmos a urgente tarefa da reestruturação das atuais formas de educação, seria quase preciso que tivéssemos uma varinha de condão, tais
o gigantismo e as dificuldades com que ela se apresenta. Isso porque não se trata apenas de alterar  métodos ou estruturas, mas transformar Mentalidades.
            E como fazê-lo? Como orientar hoje os novos construtores  do mundo de amanhã? Um dos recursos é redescobrir a literatura arcaica, as palavras-de-origem (como os contos de fadas), e por meio dela refazer o caminho de ontem e estimular , ao mesmo tempo , o poder mágico que existe  no próprio ser humano: o Conhecimento.
Literatura é ato de relação do eu com o outro e com o mundo. Os tempos mudam incessantemente, porém a natureza humana permanece a mesma.


*******Este texto foi tirado de um excelente livro da Nelly Novaes Coelho – “O Conto de Fadas” – editora Paulinas
Ela nesse livro pretende oferecer como uma espécie de “seta orientadora” para pais, professores, avós...que assumiram a tarefa de guias dos pequenos ou adolescentes no caminho do Conhecimento que leve à auto realização de cada um como parte consciente e atuante do todo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Conto de Fadas versus Conto Maravilhoso



O que entendemos por “conto de fadas” é o mesmo que Vladimir Propp denominou “conto maravilhoso”, em função da onipresença de algum elemento mágico ou fantástico nessas histórias. Contos de fadas não precisam ter fadas , mas devem conter algum  elemento extraordinário, surpreendente, encantador. 
Maravilhoso provém do latim mirabilis, que significa  admirável, espantoso, extraordinário, singular. Muitos optaram por essa denominação justamente por  conta da vastidão de personagens e fenômenos mágicos , absurdos ou fantasiosos que podem povoar os reinos encantados .
Mas a sabedoria popular manteve as Fadas como representantes desse reino.
As fadas já foram associadas às Moiras, imaginadas com uma roca nas mãos , que conteria o fio de nosso destino, como uma espécie de parteiras mágicas , que possibilitam a vida e definem os seus percalços .
As fadas seriam herdeiras das sacerdotisas de ritos ancestrais , já que a elas é resevada a função  de veicular a magia.
O elemento fantástico presente como Maravilhoso nessas narrativas cumpre a função de garantir que se trata de outra dimensão, de outro mundo, com possibilidades e lógicas diferentes. A festa começa quando pronunciadas as palavras  mágicas Era uma vez...como senha de entrada!
Infelizmente a tradição oral cedeu espaço ao império das imagens, pois hoje tudo que se diz deve ser ilustrado .
Perdeu-se muito pois,  os sons, os silêncios, a entonação e a capacidade dramática , dos contadores de histórias foram substituídos pela televisão, o cinema e os livros ilustrados  e em quadrinhos.
A maioria dos contos de fadas é provável que esteja irremediavelmente esquecida .
Os contos de fadas  que conhecemos, devem a sua sobrevivência aos flocloristas que nos legaram suas versões , através de compilações , e nos fizeram conhecer essas tramas tão antigas. Porém nunca devemos deixar de contar uma história oralmente, pois só assim as crianças podem sonhar e realizar quem são e como são os personagens dessa história.
 Isso é mágico!!!!